Yolanda Sommer

Um pouco da história da África do Sul

Dia 2 de julho, quinta-feira, a Casamundi Cultura abre as portas para falar dos episódios que marcaram a história da África do Sul. A atividade, realizada em parceria com a companhia sul-africana New World Safaris, inicia às 14h. Yolanda Sommer, experiente guia de turismo, fala conosco sobre o apartheid e como esse regime de segregação racial deixou suas marcas na sociedade sul-africana. O encontro é gratuito e faz parte da programação “Casamundi Portas Abertas”, nossa forma de incentivar o acesso à cultura, dialogar com a comunidade e dizer “muito obrigado” a todos que de alguma forma curtem o que fazemos. Conversamos com a docente para trazer a vocês um pouco do que nos espera nesse dia de muita troca, sob seu olhar.

Yolanda nasceu em Lisboa e aos oito anos de idade mudou-se com a família para Moçambique. Na época, Portugal vivia a ditadura de Salazar e seu pai teve uma proposta de trabalho imperdível em Beira. O ambiente seria mais saudável para a criação dos filhos. Lá ela teve acesso a uma formação cultural excelente, em escola franciscana.

Mais tarde, com a intenção de aperfeiçoar a língua inglesa, foi para a África do Sul estudar literatura e terminar o curso técnico comercial. Por motivos de saúde da mãe, seus pais se mudaram para Joanesburgo e lá fixaram residência. Yolanda seguiu uma carreira de 30 anos no mundo corporativo, em setores diversos, e em empresas como Barclays Bank, TAP, South African Institute of Public Relations, Homeopathic Laboratories, Mobil/Engen, Protea Chemicals, Swazi TV e Rádio RSA, onde conheceu o marido, com quem tem duas filhas e quatro netos.

As funções de trabalho a levaram a ser intérprete em negociações complexas, de governo, que antecederam as independências de Angola e Moçambique, lhe dando muita experiência política. Em 1994, com as mudanças no país, teve que reinventar-se no trabalho. Naquele ano aconteceram as primeiras eleições democráticas que resultaram na vitória do primeiro presidente negro da África do Sul, Nelson Mandela. O país abria as portas ao turismo internacional, e a proficiência em vários idiomas levaram Yolanda desde então a ser guia turística, profissão que lhe trouxe experiências incríveis e que exerce até hoje. É de lá que ela falou com a Casamundi, e é conosco que estará na edição do Portas Abertas de 02/07. E é esse conhecimento todo do contexto do país que ela traz pra gente, fazendo uma análise dos 25 anos do final do apartheid, desde o início, em 1994.

O novo governo estabeleceu o Sistema de Governo de Unidade Nacional, que incluía os vice-presidentes Thabo Mbeki (sofisticado economista e sucessor de Mandela) e F.W. de Klerk (antecessor de Mandela). A prioridade econômica era estabelecer um programa de Reconstrução e Desenvolvimento – focando nas consequências socioeconômicas do apartheid, incluindo aliviar a pobreza e retificar as enormes falhas nos serviços sociais por todo o país, que vivia uma situação periclitante. Entre 1992 e 1996, a África do Sul esteve à beira de uma guerra civil, até a assinatura da nova Constituição, em dezembro de 1996.

Graças à figura carismática e conciliatória de Nelson Mandela, aceito pelo povo em geral como o novo e primeiro líder africano do país, a transição de um sistema totalitário e segregacionista para a Democracia realizou-se com certa tranquilidade.

A política do partido Nacional Africano (ANC), anunciada por Mandela num discurso proferido logo após a sua libertação, criava a nacionalização das minas, principal fonte de riqueza do país, de bancos e monopólios industriais. Durante esse período houve um êxodo de mais de 800 mil emigrantes profissionais do país, na maioria brancos, preocupados com a sua segurança pessoal e a perda do seu status privilegiado que tinham por lá.

Uma das heranças deixada pelo regime de apartheid foi uma moratória no mercado internacional de 14 bilhões de dólares. Estabeleceu-se uma estratégia de Crescimento, Emprego e Redistribuição com o objetivo de reduzir as despesas do estado, racionalizar o setor público e reduzir o défice orçamental em 3% até 1999. Para a democracia não correr o risco de perder credibilidade, a dívida foi paga em 2001.

Outro episódio importante que Yolanda ressalta, aconteceu em 1995, quando a África do Sul foi palco da Copa Mundial de Rugby, principal esporte nacional. O mundo sul-africano festejou a presença de Nelson Mandela, que envergou a camisa da seleção e entregou a taça da vitória ao capitão sul-africano, em um gesto simbólico de reconciliação entre todos os grupos raciais.

Nas segundas eleições gerais, em 1999, o vice-presidente Thabo Mbeki foi eleito sucessor de Mandela, que se afastou da vida política. Mbeki serviu dois mandatos, foi deposto no segundo. Conseguiu manter a sua posição política até então isolando ou nomeando partidos oposicionistas. No entanto, a sua postura de recusa em relação à crise de HIV gerou crítica global. Por aqui pouco lembramos disso, mas a África do Sul era então o país com maior número de casos afetados pela doença, 5 milhões e 600 mil pessoas infectadas, 270 mil mortes. Em 2011, um ano após a Copa do Mundo, mais de 2 milhões de crianças ficaram órfãs devido à epidemia, de uma doença para o qual o mundo já tinha tratamento.

Outros fatores contribuíram para a decrescente popularidade do presidente Mbeki: a política econômica falhou em criar desenvolvimento com inclusão, favorecendo uma pequena camada social de grupos previamente desfavorecidos. O crime na África do Sul tornou-se um problema de grandes proporções entre 1995 e 1998. Os homicídios aumentaram, aproximadamente 1.500 fazendeiros brancos foram alvo de ataques.

Com a saída de Mbeki, o populista Zuma foi eleito. Seu mandato, entre 2009 e 2018, é considerado um autêntico pesadelo. O país praticamente caiu em um abismo financeiro, estabelecendo um sistema de relações perigosas entre política e negócios. O povo foi desmoralizado. Corrupção, nepotismo e incompetência tomaram conta. As lutas internas do próprio partido ANC, pressionaram a demissão de Zuma, que acumula 17 processos criminosos por fraude, corrupção, lavagem de dinheiro e extorsão. Seu julgamento está marcado para outubro deste ano, 2020.

Em fevereiro de 2018, o presidente interino indicou Cyril Ramaphosa para presidente. Cristão e formado em Direito, é considerado um excelente negociador. No passado, ele foi escolhido para ser o representante do partido africano nas negociações para a libertação de Nelson Mandela, bem como participou dos termos da nova e progressiva Constituição de 1996.

Os esforços para sustentar uma política de igualdade social

Yolanda comenta que em termos socioeconômicos, a África do Sul é considerada um dos países mais desiguais do mundo devido à grande desproporção entre os salários de uma família de ascendência africana e uma família europeia, por exemplo. Embora a pobreza tenha diminuído desde 2009, aumentou entre 2011 e 2015 e ainda afeta desproporcionalmente a maioria da população.

O programa da Reconstrução e Desenvolvimento do País (RDP) anunciado por Mandela na abertura oficial do Parlamento, mostrou uma nova visão do governo em termos de “uma sociedade centrada no povo”. Através do RDP, o novo governo assumiu que o sonho de uma nova África do Sul iria manter-se vivo.

Trata-se de um plano de integração socioeconômica para mobilizar toda a população e recursos com o objetivo de construir um futuro democrático e inter-racial, visando retificar os imensos problemas socioeconômicos provocados pelo apartheid. Especificamente, aliviar a pobreza e resolver as grandes falhas nos serviços sociais do país.

O sistema de saúde pública, por exemplo, hoje vive uma crise, com o grande êxodo de médicos e enfermeiros para países como Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

A importância do turismo

O turismo é um setor-chave na economia nacional e gera 1 milhão de postos de trabalho desde o fim do apartheid, contribuindo com 3% do PIB e até ultrapassando a exportação de ouro como fonte de divisas.

Até 2018 a África do Sul recebeu 16,4 milhões de visitantes estrangeiros, principalmente do Reino Unido, Alemanha, Holanda, França, Estados Unidos, Brasil e Índia. Por outro lado, o turismo regional dos países vizinhos e resto da África contribuiu com 61% de visitantes.

O turismo acrescenta valor nas vidas dos sul-africanos de muitas formas, desde a agricultura ao transporte.

Outro aspecto de como o turismo beneficiou a África do Sul positivamente de uma forma geral foi a coesão da nação após anos de divisão com base racial. Alguns exemplos são o Museu do Apartheid em Joanesburgo, o museu do District Six em Cape Town e outros museus como Constitution Hill e Robben Island que atraem turistas todo o ano.

Há ainda o exemplo do turismo de bairro, ou township tourism, como em Alexandra, um bairro de comunidades africanas que ainda não atraiu a maioria dos turistas e reflete o legado do apartheid. Após o apartheid bairros africanos enfrentam os restos da segregação incluindo desemprego, superlotação e crime. No entanto, lugares como esse fazem parte de uma iniciativa de township tourism que pretende desenvolver outros bairros, convidando turistas a visitar locais históricos e como forma de celebrar a cultura desses locais.

Esse fenômeno abriu novos espaços turísticos no período pós-apartheid e envolve visitas a locais de importância simbólica na luta contra o apartheid, e ao mesmo tempo realça a percepção de pobreza nas comunidades historicamente oprimidas. Por outro lado, este tipo de turismo é também uma estratégia do governo para promover o empreendedorismo africano, como os estabelecimentos de bed and breakfast (bab’s) situados nas áreas negras também conhecidas por townships ou bairros africanos. O governo apoia a estrutura geral do direito de propriedade na indústria de turismo.

Através do turismo, o país recria a imagem da nação após o período histórico do apartheid.

O legado da Copa do Mundo

A Copa do Mundo, em 2010, abriu uma janela do país para o mundo, lhe dando uma nova projeção global. Os pouco mais de 300 mil turistas foram muito bem recebidos. Uma pesquisa feita pelo Ministério do Turismo mostrou uma mudança de opinião sobre o país por parte dos estrangeiros e este foi o maior valor que o evento trouxe à África do Sul. Cerca de 90% mencionaram a intenção de visitar a África do Sul novamente e recomendar a viagem a amigos e familiares. Essa propaganda boca a boca, incrementou o turismo nos anos seguintes. A percepção do país como destino de lazer subiu 9%.

Yolanda lembra bem dessa sensação: “sob o aspecto de experiência pessoal, foi um mês completo de total euforia vivida por todo o país, sem exceção. Um ambiente de camaradagem, harmonia, alegria, adrenalina, pouco tempo para descansar (média de três horas por dia). Muito frio, mas compensador em todos os aspectos, trouxe belas recordações para nós, sul-africanos e também para os visitantes”.

18 de julho, o Dia Internacional de Mandela

Estamos a poucos dias dessa data especial e quisemos ouvir Yolanda sobre como esse dia é sentido por lá. O primeiro Mandela Day foi declarado oficialmente pela ONU em 2010. Entretanto outras celebrações tiveram lugar em 2019 quando a Fundação Nelson Mandela e o grupo de eventos 46664 (o número de prisioneiro de Mandela) convidaram a comunidade global para apoiar o Mandela Day.

A data não foi criada para ser meramente um feriado, e sim para honrar o legado de Nelson Mandela, o primeiro presidente da Democracia, e os seus valores, através de voluntariado e serviço comunitário.

Mais do que nunca, o dia deve ter uma importância maior ainda este ano. O Mandela Day é um apelo global à ação, celebra a ideia que todo o indivíduo tem o poder de transformar o mundo para melhor e capacidade de fazer a diferença.

A mensagem da campanha para o Mandela Day, como ressalta Yolanda é: “Mandela lutou pela justiça social durante 67 anos. Pedimos que comecem com 67 minutos.”

Que esta data sirva para unir as pessoas mundo afora na luta contra a pobreza, promovendo paz, reconciliação e diversidade cultural.

Desde 1942 Mandela começou a ter impacto internacional quando iniciou a campanha pelos direitos humanos. A sua figura imponente e elegante sempre se impôs onde quer que fosse. Foi sempre respeitado por todos, brancos e negros durante sua trajetória política. 

Durante os 27 anos em que esteve encarcerado, criou-se uma mística em volta dele, resultante em parte pelas medidas de isolamento total do mundo externo impostas pelo governo do apartheid. Ele é símbolo de esperança em um mundo melhor.

Na luta incansável pelos direitos humanos sacrificou a vida familiar, com dois casamentos terminados em divórcio e mal tendo acompanhado o crescimento dos filhos, muito menos dos netos.

A dinâmica do Nelson Mandela Day pertence a todos e pode ter lugar em qualquer lado, a qualquer hora.