Um pouco mais de Israel, por André Wajnberg

Conversamos com o André Wajnberg, experiente guia de turismo cultural em Jerusalém. Ele realizou duas atividades online na Casamundi neste mês de julho, direto de Israel. Queremos compartilhar esta entrevista internacional com vocês!

Contando como estão as coisas por lá, ele ressalta que assuntos que chegam para o mundo como centrais, a exemplo da anexação da Cisjordânia, para a população do Estado de Israel estão totalmente em segundo plano. Todos estão unidos pela saúde e os cuidados com a covid-19, e com a segunda onda que chegou com força no país, como detalha André:

“A desinformação ainda é grande. Aqui se culpa principalmente os jovens de não estarem cuidando de usar máscaras e do distanciamento necessário, mas vemos o aumento dos casos principalmente entre as maiores concentrações de população – duas delas se destacam – judeus ultra ortodoxos e beduínos. O país tem uma boa estrutura de saúde, e os doentes estão sendo bem cuidados. O problema está nos exames que não aumentaram e também no controle dos focos. Muitos apoiadores da anexação inclusive afirmam que este não é o momento de tratar esse tema.”

Outra questão que preocupa são os efeitos econômicos e sociais, a taxa de desemprego passou de 4% para 15%, e tende a aumentar. Há ainda uma séria crise política. Mais de 30 ministros estão envolvidos em casos de corrupção, incluindo o primeiro ministro Benjamin Netanyahu. Perguntamos então, na visão dele, porque o primeiro ministro tem tanta pressa em consolidar a anexação, e a resposta não é uma só, mas sim um conjunto de especulações:

1. Existem os motivos ideológicos de Netanyahu que busca anexar regiões do território conhecido como Cisjordânia ou Judéia e Samaria por questões militares de defesa, como o vale do Rio Jordão e também realizar uma ação dirigida aos grupos que querem a anexação de todo o território para conseguir apoio e retirar Israel de outras áreas que ficarão sob a autoridade palestina. Uma cartada para acalmar os grupos mais de direita e conseguir um apoio maior para a criação de um Estado Palestino no território restante.

2. A questão do legado que Netanyahu quer deixar – ele é o primeiro ministro que mais tempo ficou e ainda está no poder – a definição das fronteiras do Estado de Israel nunca foram definidas e para ele precisam ser.

3. Outra resposta é tirar o foco da população dos casos de corrupção e mesmo dos erros do governo no combate ao coronavírus – principalmente nas questões econômicas sociais. Isto principalmente pode ocorrer em caso de violência.

E ainda há a pressa pelo fato de ele não saber o que acontecerá durante o seu julgamento e quanto tempo seu governo se manterá.

Voltando ao covid-19, abordamos o fato de pesquisadores israelenses terem criado uma das máscaras mais eficientes para a prevenção da pandemia e sobre a importância estratégica que o país protagoniza hoje no mundo com tanta tecnologia exportada. André fala orgulhoso: “Hoje em nossas vidas utilizamos muitas tecnologias que surgiram, ou parte delas foi desenvolvida em Israel – comunicação, saúde, informática, segurança, alimentação – esta tecnologia está sendo utilizada aqui e em outros países principalmente para saber por onde passaram pessoas que foram infectadas pelo covid-19. Israel também trabalha diariamente na busca da vacina e de outras formas de esterilização de pessoas e locais.”

Em relação à segurança pública, ela é quase total no país. Furtos acontecem em algumas áreas, mas a segurança ao cidadão é grande. “Na questão militar estamos em um momento sensível por causa da possível anexação, que por enquanto não aconteceu, e também existe a corrida iraniana para conseguir arma nuclear”, complementa André.

Turismo

O guia também nos conta o que está sendo feito em relação ao turismo. Por enquanto hotéis e pousadas estão abertos para o turismo interno e devem seguir regras bem restritas de segurança. Neste momento Israel se prepara para uma nova forma, mais segura e higiênica para receber milhares de turistas. “Todos os envolvidos profissionalmente com o turismo em Israel estão lutando para que o governo apoie economicamente durante esta época sem demanda para sobreviver e que prepare um plano concreto de retorno do turismo de todo o mundo. Eu particularmente estou equilibrando as contas, cortando aqui e ali e utilizando reservas – estou dando cursos online, oferecendo um excelente curso básico de Hebraico e estudando para a volta dos meus parceiros turistas”, desabafa André.

Mas sua reflexão mais bonita, vem da essência que todos estamos passando no mundo inteiro nesse momento e das relações interpessoais.

“O mais importante de tudo é que estou me dedicando e aprendendo bastante a ser pai”, diz com sabedoria.

Ele fala também de sua experiência com os viajantes brasileiros: “O turista brasileiro é parte integral do relevante turismo de peregrinação. Católicos e protestantes (evangélicos principalmente) têm o sonho de caminhar por onde Jesus e os personagens bíblicos passaram. E a Terra de Israel é este lugar – Galileia, Monte Carmelo, Desertos do Neguev e da Judeia, Rio Jordão e, é claro, Jerusalém.

Outra vertente é a que ele atende e se dedica: o turismo cultural e exclusivo que está em crescimento de uns anos pra cá. “O Brasil como maior país da América Latina e sua riqueza cultural e de recursos é sem dúvida um parceiro estratégico para Israel. Ambos têm muito o que construir conjuntamente independente das posições políticas de seus governos. Simplesmente para o bem de ambos e da humanidade.”, finaliza André.

É sempre bom saber sobre o país, com quem vive lá. Obrigada, André Wajnberg e até nosso próximo encontro.