O amor através da arte da cerâmica

por Fernanda Dora

Quem conhece o Ateliê Ko ou caminha pelo Brique da Redenção aos domingos não imagina a história linda que há por trás das criações delicadas em cerâmica que enfeitam um pequeno e harmônico espaço, em meio a tantos artesãos. Vamos contar esta história que ilustra o entrelaçamento de diferentes culturas, a do Japão e do Brasil, em forma de arte. A entrevista exclusiva complementa a edição #14 da revista digital da Casamundi sobre o Japão que os assinantes receberam na última sexta-feira (31/07).

Em 1968, Tomohiro Ehara nascia, em Osaka, no Japão. Um ano depois, a nikkei nissei – filha de japoneses, Emilia Hissami Aso Ehara vinha ao mundo, em São Francisco de Paula, RS, no Brasil.

Cada um cresceu em um país, e o gosto e a sensibilidade os levaram ao caminho das artes, onde suas vidas cruzariam. Tomohiro é Bacharel em Física de Materiais, pela Universidade de Ciências, de Okayama. Emília se formou Bacharel em Pintura, pela Escola de Belas Artes, de São Paulo. A paixão pela cerâmica começou em seguida, já em terras nipônicas. A valorização da cultura milenar dos pais também. Ela embarcou para o Japão em 1994 para aperfeiçoar-se. Formou-se como ceramista com Koozangama, Kasamashi, Ibaraki-Ken, e em seguida emendou outro curso com Gorobegama, Bizenshi, Okayama-Ken. Para completar, seguiu estudando, dessa vez com Nagasue Ryuhei, Bizenshi, Okayama-Ken, também no Japão.

Foram 12 anos de aprendizado, prática, estudos e muito conhecimento. O que a encantou foi o valor que é dado por lá aos trabalhos manuais. São reconhecidos nacionalmente como arte: “é uma coisa fantástica! Acredito que poucos países no mundo valorizam a arte manual como o Japão”, encanta-se Emilia. Há inclusive até um nome para essa modalidade, chama-se “kouguei”. Mesmo com sua ascendência, o que ela experimentou no país onde seus pais cresceram foi algo totalmente novo: “é incrível, o sistema de aprendiz ainda funciona no Japão. Através do trabalho do dia a dia aprendemos a técnica, processo de produção, costumes, deveres, compromissos, regras, etc., uma verdadeira escola. Foram longos anos dedicados à cerâmica, minha paixão!”, agradeço todos os dias.

E foi lá que eles se conheceram, em uma linda história de amor. Tomohiro tinha um galo de estimação que havia adotado. O encontrou na porta da sua casa andando perdido pela rua. Os dois, calma – ele e o galo – trocarem olhares. Kokotian, nome que o galo ganharia em seguida, entrou em sua casa e ficou até o final de sua vida. Alguns meses depois da aparição de Kokotian, Emilia foi para Okayama continuar seus estudos. O universo conspirou, e seus caminhos acabaram se cruzando – e ela se apaixonou, pelos dois. Kokotian foi seu cupido. Viveu sete anos com eles, como um bichinho de estimação, e os dois sentem saudades dele até hoje.

Ela logo percebeu que Tomohiro era a pessoa certa para embarcar com ela de volta ao Brasil, uma pessoa especial que realmente veio para completar sua vida. E assim nasceu o Ateliê Ko, em homenagem a Kokotian, esse cupido cujo nome também tem o significado de “rio”. Foi a realização de um sonho. Ele é o alquimista e cientista do ateliê. É quem faz a pesquisa dos materiais, cria os esmaltes naturais e argilas. “Adora trabalhar com a terra, ama a natureza, as aves e pássaros. Sou super feliz, ele veio para me completar”, suspira ela.

A realização deles está em criar uma cerâmica usando as matérias-primas da região. Sua vinda para o Brasil tinha esse objetivo. Assim encontraram uma maneira de valorizar e conhecer realmente o lugar onde moram, algo primoroso para a cultura oriental. Nossa, como temos a aprender com eles!

Já são 15 anos trabalhando com cerâmica em Porto Alegre. Por aqui, culturalmente uma profissão diferente, são considerados artesãos: “sobrevivemos vendendo as nossas produções nesse famoso ponto turístico de Porto Alegre, o Brique. Um local onde pessoas da cidade, de outros municípios, estados e países visitam, para passear, tomar chimarrão e conhecer o maior shopping a céu aberto de Porto Alegre. Estamos mortos de saudades, mas gratos pela nossa saúde!”, nos conta Emília.

Porto Alegre caminha para o quinto mês de isolamento social, sem o Brique e tantas outras coisas. “Graças aos clientes e amigos que conquistamos ao longo do nosso trabalho estamos conseguindo superar este momento com muita gratidão. Sentimos também a necessidade de começar a divulgar nosso trabalho pelas redes sociais, e essa chamada da Casamundi Cultura nos deixa muito gratos. Não temos ideia de quando retornaremos ao Brique, só sabemos que temos que continuar a VIDA, olhando para frente com muita cautela, criatividade, cuidado e esperança. Continuamos fazendo pesquisa de materiais. Tomohiro começou a fazer lâminas dos granitos de Porto Alegre, gostaríamos de falar sobre os granitos em uma próxima oportunidade”, finaliza ela.

Foi a Thirza Moreira que os indicou para essa entrevista e faço aqui um agradecimento triplo: a ela primeiro, pelo presente de ter os entrevistado e ser porta-voz dessa história pura e inspiradora. O segundo, em nome deles, que de imediato quiseram saber quem havia lembrado de seu nome e seu trabalho e isso é simplesmente lindo demais! O terceiro, em nome da Casamundi Cultura, que sempre entende que seu papel é esse: fomentar a cultura e facilitar os relacionamentos, não medindo esforços para seguir sua missão mediante tantas intempéries, dando asas para seguirmos sonhando com um mundo melhor e plural.

Enquanto o Brique não volta, segue o contato desse casal de artistas e de seu Ateliê Ko. E logo a gente volta, contando essa nova história com os granitos que eles estão criando.

atelieko.com.br

Foto cerâmica: Baleia jubarte (2020), cerca de 18x11x5cm.

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